Raincife is back
Esse ano ela demorou, mas apareceu. Ainda está tímida, e nem causou muito estrago, mas esta velha conhecida não vai decepcionar em sua performance. Nossa chuva querida, que transforma Hellcife – onde o calor reina absoluto – em Raincife – onde ele só é um pouco mais molhadinho - estreou na temporada 2012.
Um bocado de gente tira os casacos do armário por causa da baixíssima temperatura nos escritórios com ar condicionado. Os desocupados, ou não tão ocupados, enchem o Twitter e o Facebook de mensagens do tipo:
Ai que friozinho gostoso, Recife.
Hoje chuva o dia todo! Nada de Recife quente, agora só frio!
23 graus, vou sair de cachecol.
De onde essas pessoas tiraram que 23 graus é frio?
Se você anda de ônibus, talvez faça mais calor. Para não se molhar, todo mundo fecha as janelas e fica cozinhando naquele recipiente cheirando à naftalina dos casacos, água dos guarda-chuvas e o inevitável suor.
Sem falar no trânsito, que fica infernal com apenas um chuvisco. Os ônibus lotam imediatamente e os táxis somem.
Uma vez perguntei a um taxista por que não conseguia encontrar táxi quando chovia. Ele disse sem piscar:
“Porque a gente se esconde!”
Eu também quero me esconder nessa temporada de chuva. Porque aí não vou precisar nadar na Conselheiro Aguiar, nem comprar guarda-chuvas a R$10 que quebram em menos de uma semana, nem vestir um cardigã de manhã para derreter com o sol do meio dia que apareceu sem ser convidado.
Falando nisso hoje eu iria usar um. Aí vi pela janela que a cidade ainda não se decidiu se vai ser Hell ou Rain. Mas de um jeito ou de outro, o inferno continua.
Recife: uma metrópole adolescente
Um monte de coisas indica que um lugar está crescendo. Mas assim como com uma pessoa que sai da puberdade para a adolescência, se ninguém tomar cuidado esse processo dá em caos total.
O primeiro sinal vem com a subida dos preços. Qualquer apartamento mal localizado e meio arrumadinho custa mais de R$150 mil. Uma refeição apenas decente custa vinte reais, quando na verdade vale dez. As corridas de táxi passam a custar uma fortuna e até andar de ônibus deixa de ser barato.
Uma cidade só fica cara se tiver quem pague a conta. Recife tá cheio de gente de fora ganhando dinheiro com Suape, o Porto digital e outros clichês que justificam a inflação generalizada. Quem já morava aqui antes tá pagando mais por tudo, mas nem todos tiveram aumento de salário. Quem era autônomo e não via tantas possibilidades um tempo atrás, agora não tem do que reclamar.
Mais gente, mais dinheiro, mais carros. Cinco anos atrás a Felix de Brito era uma rua longe de ser pacata, mas não era cenário de engarrafamentos diários a qualquer hora. O trânsito na Conselheiro Aguiar sempre foi intenso, mas esta semana li no Twitter que às sete da manhã de ontem uma pessoa demorou 1 hora e 10 minutos para ir do Mercado de Boa Viagem até a esquina com a Antônio Falcão. E ninguém imaginava que a Agamenon Magalhães e a Rosa e Silva, que já eram dureza, podiam ficar piores.
Como tudo muda aqui menos a cabeça das pessoas, a solução encontrada foi criar a viadutos e vias expressas. Cadê um metrô que facilite a vida de todo mundo? E as ciclovias? Por que transporte público aqui ainda é visto como um meio de quem não tem dinheiro pra comprar um carro?
Mas nem só de desgraça é feita a nossa transformação em grande cidade. Se em 2005 alguém te dissesse que o Cirque do Soleil viria pra cá, você com certeza não ia cair na pegadinha. Mas eles não só vieram, como já fizeram duas temporadas.
Também tivemos Black eyed peas, Amy Winehouse, Paul McCartney e já estão falando em Maroon 5 e U2.
E os vôos diretos para a Europa e Estados Unidos? Já existiram no passado, sumiram e agora voltaram com força total. Sem falar que, com a fusão da TAM com a LAN, há a possibilidade do nosso aeroporto tornar-se hub da nova companhia aérea. E a gente sabe que quando um aeroporto é hub, os preços de partida dele são bem melhores que os demais.
Eu me pergunto algumas coisas com esse crescimento todo. Como a gente vai viver e se movimentar em Recife daqui a 10 anos? Haverá um metrô decente? Quanto custará um apartamento de 2 quartos? E o principal: os Recifenses vão finalmente conseguir pensar grande?
O que eu espero mesmo é que a gente não vire aquele adulto bobalhão, cuja idade mental não passa dos 13 anos. Ninguém consegue evitar a idade adulta. O grande barato da coisa é chegar nela com maturidade. Nossa cidade precisa disso e quem vai dar a ela essa mentalidade somos nós.
Se
Se você é rico, é mau-caráter.
Se é pobre, é preguiçoso.
Se gosta de beber, está a um passo do alcoolismo.
Se usa drogas, é uma questão de tempo até se viciar.
Se tiver 5 kg a mais do que dizem ser o ideal, já é obeso mórbido.
Se fuma, em dois anos terá cancer de pulmão terminal.
Se gosta de doces, vai ser diabético.
Se trabalha muito é workaholic.
Se não gosta de trabalhar, merece ser pobre porque é preguiçoso.
Se não tem tempo ou paciência para a família, você é ingrato.
Se está sempre em casa com os pais é imaturo.
Se pega todo mundo é puta.
Se não pega ninguém é feia ou falsa moralista.
Se usa ar c0ndicionado toda noite é um vândalo ambiental.
Se faz coleta seletiva do lixo é eco chato.
Se viaja todas as férias, está esbanjando dinheiro.
Se guarda e investe tudo o que ganha não sabe a aproveitar a vida.
Se você fala outros idiomas é exibido.
Se não fala nada além da sua própria lingua é despreparado.
Se fez Doutorado é metido a intelectual.
Se não fez faculdade é burro.
Se é feio, não merece atenção mesmo que seja ótima pessoa.
Se é bonito, vai ter mil fãs mesmo sendo um idiota.
E eu poderia continuar listando.
Mais ou menos isso
Eu já fui melhor.
O que eu realmente quero dizer é: eu já fui menos rancoroso. Porque por mais que eu já esteja infinitamente melhor do baque que eu levei ano passado eu não consigo dizer que estou bem.
Mas vamos admitir que esse mundo ao meu redor não ajuda?
Tenho sentido grande parte dos meus amigos distante, importando-se pouco comigo. Já foi a época em que eu recebia amor das pessoas. Parece que agora somente um ‘oi’ e um abraço frio bastam. Até os que são mais distantes e vejo menos me tratam com mais carinho do que os próximos, tirando raras exceções.
Depois vem a tal falta de pessoas interessantes. O meu conceito de interessante é bem mais complicado do que a maioria das pessoas acha que a palavra significa. Não basta ser drop dead gorgeous. Na verdade nem precisa. Eu só quero alguém que me faça perder a cabeça. E pra isso essa pessoa não pode ser somente linda. Isso é pouco demais pra mim.
Além do mais eu tenho achado essa obrigação de ser bonito uma chatice. O tempo todo escuto sugestões para que eu emagreça, mas quem disse que eu to a fim? Emagrecer por saúde nunca foi a minha, porque quem quer ser saudável tem que no mínimo parar de beber, dormir cedo e fazer exercícios. E não precisa me conhecer demais pra saber que esse não sou eu, né?
Emagrecer por estética é até legal. Você sai pra comprar roupa e se sente o máximo. Na noite sempre aparece quem queira te beijar ou te levar pra cama. E pessoas que você nunca viu ou falou antes se apaixonam do nada por você. Mas nem é por você, é porque você é bonitinho. E aí começa aquela coisa de confundir atração com amor que, honestamente, eu não tenho mais paciência porque eu sei muito bem o final.
Eu não quero me moldar pro mundo aí fora. Já tentei e não deu. Não tenho mais saco.
Mas, e o que são pessoas interessantes para você, Jimmy?
São pessoas que me fazem ver o mundo de outra forma. Que me fazem mudar de idéia. Que não se contentam com o que todo mundo acha.
E gente assim não aparece nas festas que eu vou, nem me liga querendo ter aulas comigo e nem dá a sorte de sentar do meu lado no cinema.
Aliás, eu nem sei se uma pessoa assim realmente existe ou é só mais uma fantasia minha, para me convencer que eu não sou o único que acredita em uma forma de amor que não seja tão perecível.
Independente ou isolado?
Quando eu sofri um acidente em 2008 e fiquei um tempo reaprendendo a andar e quase totalmente dependente dos outros, eu resolvi que quando saísse daquela situação não dependeria de ninguém.
Eu era o tipo de pessoa que ficava em casa se não achasse companhia para sair. Já tinha viajado sozinho, mas nunca ido a uma festa sem ninguém conhecido para ver o que poderia acontecer. Cinema sozinho então, parecia a coisa mais loser do mundo. Achava super baixo astral ficar em casa, mas caminhar por ai sem companhia parecia muito mais deprimente.
Aos primeiros sinais da minha melhora, resolvi que todos os domingos iria ao shopping ver algum filme e comer algo que eu gosto. Sozinho. Ter saúde e vontade tinha que ser suficiente para que eu não ficasse em casa.
Funcionou. Eu comecei a gostar da minha própria companhia. Até hoje vou a qualquer lugar que eu queira sem precisar estar acompanhado. Isso é muito libertador.
Digo o mesmo para as viagens. Aos 18 anos fiz a minha primeira viagem sozinho, paga exclusivamente por mim. Fui a São Paulo, que eu não conhecia, mas que era um lugar onde eu tinha amigos. Foi uma aventura, mas nem tanto.
Ano passado fiz uma viagem ao Peru, indo atrás do suposto grande amor da minha vida. Em um fim de semana fui sozinho a Huacachina, oásis turístico no deserto. Essa sim foi a minha primeira aventura. Embarquei sem ter idéia do que me esperava do outro lado.
Lá eu encontrei um monte de gente na minha situação. Viajantes solitários que tinham um ao outro como companhia. Me senti em casa. Percebi o quão independente e solto no mundo eu poderia ser e vi que isso não era ruim. Pelo contrário: aquelas foram as pessoas mais interessantes que eu já conheci.
Recentemente estive no Rio de Janeiro. Eu não conhecia a cidade e achava uma vergonha ser brasileiro e nunca ter tirado uns dias para explorar um dos nossos símbolos nacionais. Além do mais, estava precisando de ares novos.
Resolvi que ia ficar pela primeira vez em um quarto coletivo em albergue porque queria conhecer gente. Não disse a ninguém quando comprei as passagens. Duas semanas antes da viagem dividi a minha felicidade de estar indo pra lá com um amigo e ele perguntou:
- Por que você não me contou sobre essa viagem? Eu adoraria ir com você!
Aquilo me fez parar e pensar. Por que eu realmente não tinha dito nada? Acho que me acostumei a viajar sozinho. Pior: estou acostumado a fazer tudo sozinho. Desde ir ao cinema a viajar. Não ligo mais para convidar ninguém para fazer nada. Quando saio com os meus amigos é porque eles me convidam ou colocam no Twitter que vão fazer algo ou eles marcam o encontro e apenas me avisam.
De tanta dificuldade para encontrar companhia para certas coisas, passei a gostar de fazer tudo só. Estar sempre com gente em volta chega até a incomodar em alguns momentos. E isso é um grande paradoxo porque vivo dizendo que me sinto solitário, mas eu curto muito dessa solidão.

E fica a pergunta: qual seria o limite entre gostar de estar só e se isolar?
Rio
Sabe aquele amigo que é cheio de defeitos, mas no fundo você o ama? Não aguenta vê-lo todos os dias, respira aliviado quando ele não aparece, mas em alguns momentos da vida tudo o que você quer é um abraço dele. Sabe? É esse o meu sentimento pelo Rio.
Eu vim aqui tentar entender a fixação que o mundo tem por esta cidade. Ainda não entendi, mas eu acho que é justamente a fama que a faz. Estar no Rio é quase como não estar em lugar algum. Aqui quase não se fala Português, as estrelas de TV são meros mortais que por acaso trabalham na televisão, toma-se mate com limão em qualquer lugar, o calor quase não dá trégua, as pessoas se levantam de onde estão para sambar e todo mundo acha que eu sou gringo, mesmo que, ou especialmente se eu ficar calado.
Os cariocas são doces, embora o sotaque deixe todo mundo parecendo meio cafageste ou barraqueiro. A cidade é linda sim, mas reproduziu um monte de habitantes muito parecidos. Gente extremamente linda de corpo sem parecer fazer muito esforço, com uma atitude meio relaxada para tudo e um sorriso simpático que distribuem de graça. Ninguém é diferente – e se for com certeza não é daqui.
Nunca achei que fosse me sentir em casa no Rio. Meu negócio é casaco de couro, cabelo azul, arranha-céus e histórias mirabolantes. Mas em uma tarde saí da praia de Copacabana e fui num salão de cabeleireiro aqui perto. Depois passei numa loja de sapatos, tomei um mate e voltei para o hostel. Não estava quente nem frio e de repente reparei que aquele movimento meio preguiçoso era uma delicia. Se isso é a vida no Rio, ela não pode ser ruim.
Domingo à noite os botecos chiques fecham para dar lugar aos pés de chinelo. Neles a cerveja nunca acaba e turista se mistura com o traficante que mora na favela ao lado, que se mistura com alguma mulher quase bonita a fim de algum cara que a banque e faz você pensar “Wow, this is Rio”. Só aqui assaltam os gringos dizendo ‘Welcome to Brazil’, só aqui você entende de fato as novelas da Globo e se sente mais no exterior do que em Buenos Aires em alta estação.
Rio, eu não sei se um dia vou te amar, mas eu precisava desse abraço seu. E é bem possível que eu o queira mais vezes na vida.
Malditos
Maldito 28 de Março de 1988.
Maldito 7 de Janeiro de 2011.
Maldito 7 de Julho de 2011.
Não sei onde eu tava com a cabeça. A verdade é que eu só achava que estava apenas arriscando. Eu queria mesmo tudo aquilo que a vida fez questão de esfregar na minha cara que eu não ia ter. Conto de fadas não acontece para quem não é Príncipe, por mais que eu achasse que eu era um. Todo errado, mas eu era. Aquela era a minha grande história, e aquela viagem o turning point que ia modificar tudo que eu vivia. Tudo o que eu não queria era estar aqui hoje, sendo a versão decadente daquele que eu nunca fui de fato. E o pior de tudo é se ver rodeado de gente que nunca vai me entender, porque eles não sabem o que é ter um castelo quase pronto destruído em segundos. Eles nem imaginam o que é ter sido quase sempre subestimado e quando alguém parecia ter de fato visto o seu real valor tudo não passou de um engano, ou seja lá o que foi que nós dois vivemos.
Eu desisti de tentar entender o que aconteceu. Eu só quero arranjar um jeito de superar. Mas eu não quero somente superar para continuar sobrevivendo e dizendo pra todo mundo que estou bem, quando no fundo eu vou sempre chegar em casa bêbado no sábado de madrugada achando todo mundo idiota. Se for assim, prefiro continuar com essa ferida aberta para sentir alguma coisa. Uma vida sem emoção é pior do que a morte.
Alias, por que aquele avião não caiu? Eu poderia ter morrido naquele vôo de volta achando que fiz o melhor que pude e sentindo orgulho da minha coragem. Porque a dor só veio depois e nunca mais passou. Muita gente ia sofrer, mas eles iam seguir adiante. Eu é que não to conseguindo colocar um sorriso no rosto todo dia com a mesma naturalidade de antes.
É tão mais fácil todo mundo que me vê de fora me culpar ou dizer que eu tenho que reagir ou racionalizar a situação. Desculpa, mas não dá para ser racional. Se as pessoas fossem racionais ninguém casaria, muito menos teria filhos ou trairia seus parceiros. A gente faz essas coisas movido por um troço muito mais forte do que tudo o que a gente consegue pensar. E esse troço me diz o tempo inteiro que eu estou e continuarei sozinho, que meus amigos nunca serão capazes de me ajudar, nem a terapia, nem trabalhar mais horas do que o meu corpo aguenta.
Maldito ano de 2003. Malditas cartas. Maldita telefonia celular. Maldito Skype. Maldita ingenuidade de achar que amor nasce de dentro pra fora.


